O rio e a serpente

(Jorge de Lima)

O rio e a serpente são misteriosos, meu filho.
Do cimo desta montanha
dois círculos do Eterno estavam.
Um círculo era a serpente,
o outro era o rio:
ambos se despenharam
procurando ambos o homem,
um para o purificar,
o outro para o envenenar.
Ambos foram encontrar
o homem simples lá embaixo.
Um lhe ofereceu o Peixe para o alimentar,
o outro lhe ofereceu o fruto para o intoxicar.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho.
Das nuvens se despenharam,
ambos se arrastam na terra
como dois caminhos do homem,
para ele se guiar.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho:
vêm do começo das coisas,
correm para o fim de tudo
e às vezes na água do rio
a negra serpente está.
As coisas eram simples,
ficaram confusas, meu filho:
o rio que te pode lavar
também pode te afogar,
pois com a aparência do rio
é a serpente que está.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho:
eram dois círculos no início,
vêm desatados de lá.

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