Algo digno de ser contado

Ontem aconteceu um dos fatos mais extraordinários (e esquisitos) da minha vida. Eram cerca de 11:20 da manhã e eu dormia. Sonhava com qualquer coisa quando tive um mergulho e passei a sonhar em profundidade. Uso interiormente essas expressões para quando volto aos meus primeiros tempos de colégio no meio dos meus sonhos, algo que, para meu bem ou para meu mal (boto umas fichas nessa segunda hipótese), tem se repetido cada vez mais. Essas voltas têm sido um reencontro com as pessoas, não com os cenários; isto é, no meio de um cenário atual da minha vida (num dia foi em plena Paulista) ressurgem aquelas crianças com seus rostinhos miúdos e uniformes vermelho-cinzas do Aplicação . . . É fantasmagórico! A intensidade agressiva dessas lembranças não-convidadas sempre me enche de medo e angústia durante — e depois — desses sonhos . . .

Pois bem. Tinha submergido a um desses transatlânticos naufragados no fundo do meu oceano psíquico e via meus colegas de onze anos atrás sentados, tagarelando e rindo, . . . no quarto em que, naquele mesmo momento, estava dormindo! No quarto a que voltarei para dormir daqui a umas horas . . . No meio deles (lembro-me de reconhecer uns três no meio da turba), estava a garota que gostava pelos meus dez anos, a Natália Q., minha colega de sala e vizinha de carteira (pois éramos organizados alfabeticamente, e N depois de G . . . vocês entenderam!). Vi-a com assustadora, cristalina nitidez. E ela se movia, estava viva . . . Estava viva no fundo de mim! Usava aquele cabelo meio-curto, aquela camisa branca do uniforme, o short cinza com a inscrição do nome do colégio em vermelho, o tênis com o cadarço . . . Vi-a como não a vejo há onze anos e como nunca mais a verei nessa vida!

Mas, desculpado meu tom melo-dramático, não foi esse o fato extraordinário. Essas visitas, um tanto saudosas, bastante aflitivas, têm sido cada vez mais “normais”. Não duram muito e desta vez logo ganhei mais consciência do que se passava e bruscamente parei de ouvir o som de conversa de criança (aliás, só notei que o “ouvia” nessa altura quando, já mais acordado, senti a porta das profundezas se fechar). E logo tudo voltou para as depressões abissais de onde tinha sobrevindo. Estava na cama de olhos abertos, sentindo-me um pouco emocionado, algo suave, até prazeroso, mas também confuso e angustiante . . . E foi então que o telefone tocou. Devo antes explicar que (para a desgraça do meu sono fora de hora) muita gente liga aqui para a minha mãe durante o dia, desde a manhã até o início da noite. Ou . . . Permitam-me uma correção: muita gente não, mas muitas vozes sem nome nem alma de um Ser chamado — telemarketing! “Aquelas paulistanas!”, diz sempre minha mãe quando é sua vez de atender. . . Pois é, lá vinham elas de novo! Ah sim, um detalhe: o nome da minha mãe é Celina.

Atendi. “Bom dia! Poderia falar com a senhora Natália?”. Meus olhos no mesmo instante lacrimaram; senti algo terno, docemente reconfortante, incompreensivelmente tranqüilizador transpassar minhas mãos, minhas costas, meus olhos, o céu da minha boca: tudo estava compreendido, tudo estava perdoado! “(…) Natália o quê?” Desafiei quem vinha à minha casa me fazer as perguntas mais difíceis e, por um instante, quis saber se o Mistério seria capaz de tanta coragem, de tanta loucura — de tanta generosidade — quanto Eu, o idiota até há pouco, o escolhido daquela manhã: “não . . . a senhora Celina, poderia falar com ela?”. Quis ainda perguntar quem era, uma fração de mim (a melhor fração) ainda esperava ouvir um: “é um Anjo!”, “O Demônio!” ou ainda, mais literário-humoristicamente: “Sou o sonho da tua esperança, tua febre que nunca descansa, . . .” etc.

Não, não era nenhum desses. Essas portas haviam se fechado também. Mas sei que cada dia que passa é um a menos para atravessá-las de vez . . .

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