As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
D.
Uma das idéias mais profundas que o Rafael já me disse foi sobre o “amor das coisas”. Estávamos numa mesa de McDonald´s depois de uma missa e ele, recordando seu desenvolvimento espiritual, se referiu ao momento em que tinha descoberto na adolescência a estabilidade e a solidez do Real, e nelas sentindo o Amor mais impessoal — e pleno. Soa estranho, até incompreensível? Tá, então deixa eu te contar uma estorinha, caro leitor.
Era uma vez um cara que tinha acabado de levar um fora. Há poucas experiências que se parecem tanto com a morte, e que levam tantos ao encontro dEla. Os pensamentos que ocorrem ao espírito num momento desse — “mulher não presta”, “o mundo é mau”, “o beijo é a véspera do escarro” — têm todos o denominador comum da aniquilação, da negação do Ser, da auto-diluição no Grande Nada. É comum ler em poemas que as estrelas pararam de brilhar, que ninguém mais existia no mundo, que a vida seria daí em diante uma noite cerrada . . Até aqui 99,999999% de nós já conhecemos por experiência vivida. Mas olhemos com mais cuidado para esse quadro banal. Como ele estava — say — fisicamente, quando levou o fora? Digamos que sentado, na frente do pc. E digamos que por um instante, se distraindo um pouco da sua Tão Grande Dor, ele note que, por paradoxal e incompreensível que possa parecer, apesar dele sentir desoladamente que nada mais existe — ou querer que assim fosse –, sua mesinha do computador continua lá, apoiando seu cotovelo pesado de dores, nela está seu teclado, cinicamente indiferente a tudo o que por ele acabou de ser dito e até apoiando a desumana tela está um livro que afrontosamente não é (sequer!) de poesia — é pura matemática. Já percebes o tamanho da incongruência, sábio leitor?
Pois é, assim são as coisas. Elas não se importam com nossas bocas que nas tardes suspiram, com nossos olhos que, como conseqüência, choram pelas madrugadas — elas não querem nem saber. Mas elas estão conosco, quando nós mesmos não estamos mais em nós. Sua companhia indiferente, sua insistência para nada, sua fidelidade sem compromisso, sua gratuidade fria seu . . . amor impessoal. Acho que chegamos no ponto, don´t you think? Pois é, é desse Amor Impessoal que a mim e a Drayfine contava o Rafael, me desvelando um mundo até então só suspeitado e a que vinha lentamente me aproximando, sem ter os nomes certos, só tateando, e no escuro. (Muitíssimo obrigado por mais essa, Rafael!) E dessa idéia imaginei o que talvez seja o rascunho de uma refutação filosófica ao suicídio:
Eia a tese: o suicídio é uma contradição existencial. O suicida se engana pensando que sente que o Ser não existe mais, mas na realidade o que ele sente é que ele não queria que o Ser existisse, e se ilude pensando que sente o que ele queria sentir, o que ele gostaria de sentir pois é o que ele gostaria que fosse real. E ele queria que o Ser não fosse pois, tendo sido rejeitado — todo suicídio nasce de uma rejeição –, tendo sentido o Amor (irrealmente todo centrado numa coisa só, uma mulher, um emprego, um exército et caterva) como Ódio, como abandono, ele quer sentir inclusamente aquele Amor Impessoal Das Coisas como ódio e abandono também — essa vida de merda não vale de nada!, dizes, mas pergunto: o que a vida, de merda ou não, tem a ver com o emprego que acabaste de perder? o emprego é só uma parte da vida, não? a vida não continua aí com ou sem emprego? amanhã o Sol não nasce, esteja você no campo de concentração ou com a Gisele Bündchen na cama? — mas, pela camuflagem de pensar que sente o que gostaria de sentir, ele pensa que realmente está abandonado, na sua confortável casa num bairro nobre da cidade, enquanto a máquina termina seu café expresso e cai uma chuva fininha lá fora . . . Mas, se o Ser me deixou, o que fazer? Não é preciso muita meditação para ver que nada há para fazer! Imagino que ninguém faça criativamente nada no Inferno! Se há algo para fazer . . . é algo para fazer com o Ser, que portanto não me abandonou. Mas eu não quero aceitar isso, não convém ao meu desespero tão valioso e pessoal, então vou me concentrar alucinogenamente na idéia de que realmente não sinto mais o Ser, e se sou obrigado a admitir este meu corpo pançudo, e essa janela impertinente batendo por causa do vento, então vou tentar sentir como se todo esse soberbo, incomensurável e onipresente mundo material não fosse presença, não fosse amor — a janela bate, mas não é comigo. E, seguindo a lógica explicada pelo Olavo num artigo recente de quem, querendo na verdade arredondar os quadrados, começa jurando que, no fundo, os quadrados sempre foram redondos desde pequenininhos e então procede a arrendondá-los na prática com toda a brutalidade que, por simpatia entre iguais, sempre acompanha a insensatez (Olá Movimento Gay, tudo bom com vocês?), o suicida, se o mundo insiste em existir, vai ter que aniquilar uma parte dele como símbolo do Todo, aquela mesma que lhe dá a inconveniente evidência de que o Ser ainda é — seu corpo. E como ele pensa que sente o que gostaria de sentir — que o Ser o abandonou — faz isso como uma conseqüência lógica desse abandono quando, na verdade, como mostrei acima, o próprio ato é a contradição dessa premissa pretextual — se é preciso se matar, então não há motivo para se matar; a mesa do computador ainda está aí, se rindo toda das suas mentiras solitárias! Em suma: o suicídio é, antes de tudo, auto-engano e, enquanto tal, falsificação existencial.
E só mais umas palavras: outro dia ainda repetia a uma pessoa aí o dito “sou humano e nada do que é humano me é alheio” e o dizia como se quisesse me humanizar mais e mais. Muito bem. Pois agora sugiro: além do humano, quiçá mais que o próprio humano, o que humaniza é o pré-humano. Tente ficar alguns minutos, todos os dias, contemplando uma velha árvore, uma rocha cheia de musgos, a sua estúpida mesa do computador. Aprenda com sua estabilidade, solidez, impenetrabilidade, com a sua mutação lenta (até um fim repentino!), com a sua perfeição de virtudes cristãs: as coisas, também elas, tudo sofrem, tudo crêem, tudo esperam, tudo suportam. E reflita sobre esta charada: a mais firme intuição desse Amor difuso e sem rosto é o princípio de toda visão-de-mundo objetiva e, mais profundamente, de toda vida objetiva, de toda vida real.
Aprenda o amor das coisas. Talvez por aí você ainda possa aprender algo sobre o que pode ser o amor humano.
fevereiro 2, 2010 às 12:43 am
Olá, amigo. Disponha.
Bem, parece-me que o seu raciocínio sobre o suicídio condiz com a verdade. E de certo modo – apenas para dizer com outras palavras, que me parecem mais exatas – o sentimento suicida a que você se referiu tem uma ligação com a soberba.
A soberba, que já pensei ser a origem de todos os vícios, é um desvio pelo qual o sujeito inverte a hierarquia da realidade, a ordem do Cosmos. Sabendo intuitivamente que ele é menor até do que uma simples árvore, o sujeito chega no entanto a pensar-se como se fosse maior do que todo o Universo e, pasmem, do que o próprio Deus, que é maior do que o Universo. Esse desvio está implícito em qualquer ação de soberba; a revolta contra a ordem natural, o orgulho e, inclusivamente, a depressão suicida.
Ora, se realmente te parece que o fato de UMA pessoinha particular não gostar de VOCÊ, que é apenas outra pessoinha nesse mundo gigante, se te parece que esse fato é o suficiente para tirar o sentido do próprio Ser, é porque você está sendo cínico ou retardado. Acredito que a maioria se enquadra no primeiro caso.
Trata-se de uma inversão da hierarquia natural, uma rebeldia existencial que põe o particular acima do Absoluto, e que põe (isso é o pior) os apetites pessoais acima do Sentido que o próprio Deus deu à sua vida. O que é o Plano de Deus para você, quando a guriazinha não te dá mais bola? Uma futilidade! E daí que Deus me acha importante? Problema dele; a Maria Luiza não acha. A opinião dela, burrinha como é, vale muito mais que a do Onisciente. Isto é uma loucura, é claro.
Em última instância, esse amor impessoal das coisas é só um sinal do Amor absurdamente pessoal que o Ser tem por nós; Amor que chegou ao ponto de dar-nos a existência; a vida; a alma racional e imortal. Amor que, para um cristão, fê-lO rebaixar-se à morte, e morte de cruz! Que absurdo considerar o amor de um homem mais valioso que isso.
Escrevi demais. Seu texto está muito bom, um dos melhores que já li. Talvez o melhor. Abraços!
fevereiro 2, 2010 às 4:12 pm
Adélia Prado
Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei -
percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos,
estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido
demora um pouco a latir,
a festejar seu dono
- ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar
Por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.
Quem me feriu perdoe-me.
fevereiro 2, 2010 às 4:16 pm
Nome do poema: Cólera divina