Estória de um moço (primeira parte)

Outubro 3, 2009 por guilhermehobbs

Era uma vez, numa aldeia distante por entre serras azuis e cachoeiras esverdeadas, um rapaz que construia uma torre para ir morar na Lua. Hélio tinha na vida este sonho — seu único sonho — desde a noite em que vira, por um acaso, depois de despertar de um pesadelo de criança, a Lua cheia na janela de seu quarto: ele, que era só um menino, sentiu-se como se se apaixonasse pela primeira vez . . . Desde essa noite, passava os dias planejando sua futura chegada àquele reino belo e distante que, quanto mais seus braços lhe davam forças, tornava-se cada vez mais próximo: depois de ensaiar — um mero amador! — com os galhos secos que achava no jardim de sua casa, começou, já adolescente, a erguer sua torre com os pesados troncos da floresta. Machado, seu melhor amigo, seu único amigo, lhe trazia nos braços musculosos as pesadas árvores que, para se exercitar, arrancava todas as manhãs da terra e, pelo restante do dia, enquanto seu companheiro trabalhava nas alturas encaixando as peças brutas de sua criação, Machado fumava seu cigarro de capim molemente encostado no pilar da torre — e assobiava e cantava as moças que, distraídas, como são todas as moças, por lá passavam.

Uma das moças Hélio conhecia de nome e de rosto — e a amava. Mariana vivia com o pai serralheiro no mais fundo da floresta e era a moça mais bela da aldeia, com seus bandós loiros e olhos azuis que eram como uma fonte pura e jamais encontrada. Ao entardecer, saia todos os dias com amigas para colher um gira-sol, o mais radiante que pudesse encontrar, numa campina perto da torre de Hélio, que a ela somente contemplava como quem admira um astro em fogo ao cruzar entre planetas sem luz própria. Apaixonado, ardente em brasa, saia dali de volta à aldeia com Machado, a quem nada confidenciava, e em seu silêncio punha toda a sua fidelidade — ela era toda para ele e ele era todo dela. É claro que Mariana jamais sequer vira Hélio, que, no entanto, naqueles seus instantes diários de eternidade, buscava uma espécie de fuga de sua existência insuficiente — encontrando, na realidade, um agravante e um perfeito retrato dela. E ele então pensava que quando chegasse afinal na Lua, daria um jeito de levá-la consigo, ou talvez nem pensasse mais nela . . .

Até que alguma coisa aconteceu. Mariana, sempre saltitando pelo caminho de volta junto das amigas, a flor entrelaçada no cabelo e os olhos anelantes no Sol poente entre as montanhas, por um instante irreal naquela quarta-feira dia 15 de março — e Hélio, no segundo seguinte, não tinha mais certeza se não fora apenas um sonho — olhou para cima! Olhou para a torre? Viu ele? Viu que ele a via?! Hélio não sabia o que pensar, mas as marteladas em seu coração acelerado o confundiam com enigmas em tom de resolução: era a hora! ele tinha que fazer algo! é a vida que bate à porta! — se dizia sem se compreender . . . Como ele poderia agir, afinal?! Mas ele já estava construindo sua torre até a Lua . . .

Estava inquieto naquele entardecer junto de Machado. Ele, que sempre só ouvia as aventuras e mentiras que lhe contava seu único amigo, sem ter nada para responder ou dizer de si (e difusamente atraído por todo aquele palavreado que, no entanto, não hesitava em taxar interiormente de “fútil”), pela primeira vez tomou a palavra e, muito timidamente, começou a murmurar sobre Mariana, sobre o que ocorrera, sobre o que poderia ocorrer . . . Machado se deliciou em ouvir tudo aquilo, tinha um olhar diferente sobre o amigo naquela tarde — Machado que, apesar das aparências, era um sábio. Um sábio mundano, é certo, mas ainda assim um sábio e sua maior alegria era observar a vida que, ocultando-se e como que morrendo por um instante, renascia no outro transmutada sob vestes inteiramente novas, as menos antecipáveis: sempre a mesma vida, sempre renovada. Era este fogo inextinguível que Machado sentia naquela fala tão acanhada — tão sincera! — do amigo, que lhe provava em definitivo que não seria por uma torre feita de floresta que Hélio escaparia da floresta, do verdadeiro Elemento que é a vida. O único movimento permitido no Um é conhecê-lo mais a fundo e a vida que em Hélio morrera por fora, tinha renascido por dentro — e ele não tinha mais para onde nem como fugir:

– Então você vai conhecer a Mariana amanhã, certo?, disse Machado de súbito.

– Não, não vai ser possível, isso . . .

Machado, sem paciência para essas hesitações, cortou Hélio abruptamente e expôs ao amigo seu plano de ação:

– Tá, tá certo! Olha, minha idéia é a seguinte: vou falar com ela amanhã, já conheço ela, e digo que você quer conhecer ela também. Apresento vocês e depois deixo por sua conta e risco . . . Uma dica que posso te dar é

Agora é Hélio que o interrompe:

– Não pedi nem preciso de dica nenhuma! Aliás, tudo isto está muito acima da sua imaginação, ainda mais acima do que o alto da minha torre está para o charco imundo da floresta! Além do mais,

– Escuta aqui, seu louco,

– Eu sou Poeta!

Hélio, falando com toda a força da sinceridade dos loucos, fez parar Machado, que viu que pouco havia por fazer ou dizer. Em meio à raiva, sentiu pena do amigo e pensou que o melhor, naquele momento, seria deixar o barco ser levado pela torrente do rio — ainda que para naufragar fatalmente ao chegar no alto-mar. Repetiu pacientemente o plano e perguntou se o outro concordava. Hélio, ainda muito confuso, porém mais calmo, assentiu calando-se.

(continua . . .)

É a hora

Setembro 11, 2009 por guilhermehobbs

É a hora de desaparecer na noite. É a hora. Até terça, no máximo quarta, pretendo trazer para vocês alguns monstrinhos que achar lá. Fico na noite até encontrá-los.

É a hora.

A verdade

Setembro 11, 2009 por guilhermehobbs

(Drummond)

A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Volta às aulas

Setembro 10, 2009 por guilhermehobbs

Nessa noite tive um sonho que é toda a sensação do meu dia. Sonho não, recordação: era de novo um menino percorrendo os quartos, salas, corredores, todos vazios, da casa da minha vó numas férias perdidas de quando era criança. Minha vó descansava invisível em alguma parte inexistente da casa, que era toda minha e eu não tinha nada o que fazer lá. Ansiava por qualquer coisa que não sabia dar nome — a rua lá fora? a brincadeira das crianças na rua? meus colegas que me destestavam? algum brinquedo novo de que nunca me enjoaria? — e andava e andava, talvez para encontrar esse algo, talvez para tentar esquecê-lo. Tentava criar meu brinquedo, tentava ser minha própria compania — mas isso era tão insuficiente, eu sempre fui tão insuficiente . . . E eram férias intermináveis, meus colegas viviam em mundos encantados, incomunicáveis, que jamais poderia habitar e na tarde infinita eu era único, vazio, diante do mar inesgotável da minha indiferença a mim mesmo . . .

O mais curioso no sonho, contudo, era que a casa da minha vó estava em reforma. Bem no quarto dela, as obras abriram uma passagem (parecia também uma porta) que não conhecia e que, menino medroso que era, não me atrevi a explorar. Que pena! Talvez fosse a entrada para sair daquele sonho. Para um sonho melhor, talvez.

***

Entre as tardes vazias da minha infância e as noite claras da minha adultice vadia, quê mudou? Mudou que, do outro lado da porta, acho que ainda vou estar sozinho.

Portanto: o que ainda significa atravessá-la?

O beijo

Setembro 2, 2009 por guilhermehobbs

(Manuel Bandeira)

Quando a moça lhe estendeu a boca
(A idade da inocência tinha voltado,
Já não havia na árvore maçãs envenenadas),
Ele sentiu, pela primeira vez, que a vida era um dom fácil
De insuspeitáveis possibilidades.

Ai dele!
Tudo fora pura ilusão daquele beijo.
Tudo tornou a ser cativeiro, inquietação, perplexidade:

- No mundo só havia de verdadeiramente livre aquele beijo.

Breve nota sobre a Indelevelmente Histórica e Bravamente Heróica Batalha da USP pelejada ontem pelas plagas da Cidade Universitária

Junho 10, 2009 por guilhermehobbs

A primeira palavra que ouvi ao entrar nessa universidade foi repressão. Estava eu, um desorientado neófito sonhador, saindo da sala de preenchimento da matrícula e, depois do ritual emporcalhamento do meu rosto e da minha camisa (que, na hora, achei o fato mais “significativo” e extraordinário de toda a minha vida), veio uma menina, que depois soube que era da famosa (e infame) NN, me convidar para uma certa festa cheia de muitos adjetivos que, de alguma forma mística e mui incompreensível para um não-iniciado como eu — era uma festa contra a tal da repressão.

– Mas . . . Como assim “repressão”? Que repressão tem na universidade?

– Ah, a repressão, pô! Tá vendo ali? É o nosso diretor facista!

Olhei para onde ela me apontou: um homem de meia-idade (mais pra idade que pra meia), de bengala, já muito calvo, olhava de forma algo desconfiada, e até hostil (na hora me pareceu hostil), para os lados, para os novos estudantes, enquanto seguia em frente com passo firme.

– Nossa! Mas ele é facista mesmo? Gosta do Mussolini e tal? . . .

Ele não gostava. Era tucano, especialista em Max Weber e, suponho, que como todo bom tucano, um fabiano água-com-açúcar, bem do nem-isso-nem-aquilo: afinal, que faria um super-malvadão facista na direção de uma faculdade reconhecida pelo esquerdismo acima de qualquer suspeita?

– Ele é facista sim, botou grades no espaço dos estudantes, é autoritário . . .

E enquando olhava de novo para nosso Mussolini Geraldo Alckmin, de um facismo tão modesto, tão . . . chuchu!, minha cara iniciadora nos mistérios do esquerdismo aloprado sumiu tão inexplicavelmente quanto aparecera. Foi tudo uma questão de estratégia revolucionária, hoje penso.

Foi uma decepção mútua, para dizer a verdade.

Política

Junho 5, 2009 por guilhermehobbs

A questão em política é, e sempre será, para mim, por que aquela menina solitária no ponto de ônibus, sem amigos por perto (e por longe?!), sem paquera, no frio, com fome e querendo ir logo para casa jantar, por que aquela menina não está, e jamais estaria, na assembléia da Letras, da Filosofia, no comitê do PCO or whatever?

Aquela menina que, em casa, escreverá seu post diário sobre solidão no seu blog, aquela menina que veio hoje para a faculdade para estudar Leibniz — só para se perder mais profundamente dentro de si mesma, para boiar mais no fundo — por que, insisto, essa garota não está dizendo e repetindo e repetindo que é um absurdo a PM invadir o campus, que não pode haver repressão ao movimento sindical, por que ela não está me dizendo tudo isso no saguão da faculdade, movendo pausadamente as mãos, naquele tom persuasivo de quem diz “sou calma, muito calma, mas mexeu comigo . . .”, por que ela olha para o chão, por que ela encolhe os lábios de frio, por que ela nem responde aos meus olhares insistentes, por quê, por quê?!

Por que ela se fecha a todo esse mundo — o meu mundo, o mundo que luto a cada dia por fazer cada vez mais meu — a todo esse mundo de vulgaridade, de perguntinhas engraçadas durante a aula, esse concurso de piadas interminável, de piadas que andam, falam, amam!, até contam piadas umas pras outras . . . Por que você não conta a sua também? Por que você fala com a professora em particular no final da aula, por que você não quer se mostrar — se mostrar um imbecil — como eu, por que você nem me deixa te odiar por tua superioridade, por que eu ainda acho teu silêncio mais interessante que todo esse bla-bla-blá aqui, por que eu não ouso escrever teu nome, por que tua solidão me faz querer ficar sozinho, por que, sozinho, me sinto contigo, por que sonho contigo acordado se, à noite, só tenho pesadelos, por que você me fez voltar a ouvir Radiohead, por que você me faz querer andar, sozinho!, pelas ruas do centro entre mendigos, advogados e crianças de colégio, por que você me faz gostar dos meus maus versos — das merdas dos meus posts — se eles falam de você?!!

Em resumo, é essa a minha opinião sobre a recentemente decretada greve geral dos estudantes da USP no quadro mais amplo da crise do capitalismo global tardio.

Forrest Gump e os Morcegos

Fevereiro 13, 2009 por guilhermehobbs

Com mais de uma década de atraso acabei de ver o famoso filme hollywoodiano Forrest Gump — e a impressão foi profunda. Locadoras são como caixas de chocolate, nunca se sabe o que pode vir, mas desta vez vi e ouvi a melhor estória que já assisti ser contada em um filme. Creio não ser muito inovador em dizer que há muito o que se tirar dele, e muitos caminhos para fazê-lo. Aqui vai minha tentativa de explicar e elaborar brevemente os pensamentos que tive durante essa experiência, mantendo-me o mais preso à impressão original.

A idéia fundamental do filme é expor, de modo muito realista, uma vida levada inteiramente no solo mais puro do Real. Forrest não tem ilusões, não faz grande planos e, de fato, tem uma imaginação bastante curta. A debilidade de suas faculdades mentais não o permite exceder intelectualmente o terreno imediato de sua vida concreta. Mas é necessário fazer uma distinção importante: meu desejo é enfocar o realismo da visão-de-mundo de Forrest, que não pode ser confundido com uma limitação no sentido de uma cegueira, de uma negligência com o Real. Ao contrário, o que o filme mostra, do começo ao fim, é o ocultamento do Real por parte das pessoas normais que, seduzidas pela sua própria imaginação, tornam-se voluntariamente cegas para o evidente.

Assim, é através do contraste que o filme denuncia o ilusório rídiculo daqueles que vêem Forrest como um palhaço, como o “retardado da cidade”. Esse procedimento serve como prova da superioridade não apenas moral, mas mesmo cognitiva de Forrest sobre aqueles que, como que por um excesso de inteligência, vivem como verdadeiros retardados.

Creio que o filme expõe inteiramente sua tese na relação entre Forrest e Jane, até o fim da vida envergonhada daquele que tanto gostava. É claro que a rejeição de Forrest por Jane não se deve apenas ao seu temor de um vexame social mas sobretudo ao seu temor de magoá-lo com seu temperamento descontrolado e auto-destrutivo. Porém, o que nos importa aqui é o fato de que Jane, constantemente atrás de seus fantasias afetivas e políticas, condena-se a se privar, até perto de seu fim, da única real promessa de paz e felicidade que pôde encontrar em sua longa e acidentada trajetória: a união com Forrest.

Jane está sempre com as companhias erradas e parece saber desde o início que só Forrest representa a felicidade real, mas prefere seguir seus sonhos desvairados. Neste ponto, vejo uma das associações mais interessantes de todo filme, ao menos do ponto de vista da crítica sociológica: Jane segue todas as modas culturais, ao contrário de Forrest que permanece em si mesmo. A associação diretíssima, mais que meramente analógica, entre a instabilidade de Jane e a volubilidade da cultura de massa americana no pós-guerra é muito reveladora do quanto de sofrimento que as ilusões políticas modernas podem infrigir aos indivíduos. Jane não é somente como a América, Jane é a América pois é jogada de um fetiche propagandístico ao outro como foi (e agora é, mais do que nunca) a população dos EUA. O que tantos tão belos ideais tem haver com o Real? Muito pouco, e o gigantesco intervalo é precisamente do tamanho do estrago à estrutura da personalidade provocado quando finalmente chega a desilusão e o “enterro da última Quimera”.

Forrest não precisa de nada disso e, assim, é feliz em sua simplicidade. “Mamãe sempre me fala de um modo que eu possa entender”, e ele jamais se compromete com o que lhe escapa à compreensão. Mesmo a guerra é reduzida a um essencial imediato: buscar sobreviver mantendo um emprego, para o resto ele não tem ouvidos. Não lhe interessa a luta contra o comunismo da mesma forma que pouco que lhe importam os Panteras Negras: se ele não pode entender o que realmente todas essas coisas significam, ele as dispensa. O exato oposto encontramos em Jane, que cede mesmo ao impulso de posar semi-nua com o uniforme da faculdade sem sequer pensar nas conseqüências — e ela é explulsa.

Jane é a criança que não quer nunca voltar para casa, pois não pode suportá-la, depois a hippie sonhadora e, por fim, a drogada alienada: encarna assim, sucessivamente, os arquétipos naturais da evolução (ou decadência, que é sentido propriamente romântico da evolução) da psique romântica, constitutivamente indaptada e inadaptável ao Mundo. É a Mignon sem raízes, sempre prestes a voar ao Infinito originário e perdido, o Wilhelm entusiasta do Grande Teatro da Sociedade, mas sem querer realmente vivê-lo, apenas atuar nele, e por fim, o Arpista que, equilibrando-se em um fio tênue de vida e lucidez apenas por seu frasco de veneno, está espiritualmente mais que morto — sem presente, sem passado e sem futuro.

Esse analogia com a obra de Goethe é apenas uma das inúmeras que o filme permite realizar com obras de reconhecida universalidade e sabedoria e que só atestam, acima de qualquer preconceito que o homem em busca de elevação espiritual possa ter em relação a sétima arte e, especificamente, a Hollywood, que Forrest Gump possui também algo da dourada e rara centelha do Espírito.

Mas a sabedoria não está em Jane, o grande contra-exemplo, e sim em Forrest.

E o que Forrest, afinal, sabe? Essa é uma pergunta que soa estranha pois ele parece não saber nada. Sua baixa capacidade mental, somada ao seu franco desinteresse por assuntos mais complexos, apontam na direção da total ignorância. E, no entanto, é somente desse nada ingênuo e infantil que pode emergir uma alma verdadeira: sem acertos, ele também não carrega erros. Como disse, ele jamais tenta superar sua banalidade e insignificância existencial e interior por um salto no desconhecido, ou pelo apego a promessas falsamente claras. Ele vive com o que tem, com o que pode ter, e assim é um homem livre.

Jane não hesita diante do evidentemente falso, desde que tenha algo de hip e transgressor, e assim mergulha fundo na noite do auto-engano. Seu momento mais deprimente creio ser quando decide-se a tocar Bob Dylan semi-nua em um bordel, na ilusão de brilhar numa performance artística altamente contestadora. Em último ato de ato de pudor paradoxal — revelador da profunda divisão interna de sua alma — toca com o violão escondendo os seios, o que é obviamente execrado pelos freqüentadores do lugar. Ela é humilhada e agressivamente assediada até a chegada de Forrest, que a salva levando-a nos braços dali. É salva pelo bom-senso de uma visão-de-mundo mais livre de condescendências e fantasias que a sua, que não acredita nas pessoas, apenas age da melhor forma possível tendo em vista situações de facto.

É sobre essa infantilidade prudente e alerta que Forrest veio nos contar, a forma mais pura e plena de Ser. E sem dizê-la, deixa-nos com uma pergunta: Como nós, homens educados e vaidosos, podemos segui-lo nesta grande corrida de uma costa a outra da vida? Bem, aqui já sabemos que não há fórmula, não há segredo, há apenas a sinceridade e a sinceridade com nós mesmos — é preciso enfrentar o morcego que invade nossos quartos à meia-noite, como diria aquele outro anjo . . . O morcego que nos pergunta, à semelhança de Forrest Gump: Are you stupid or something?!

A traição de Capitu

Dezembro 31, 2008 por guilhermehobbs

Na parte mais exigente da nossa imprensa cultural, a mini-série Capitu não encontrou uma resposta mas uma verdadeira reação. O alvo era o “abastardamento” da obra de Machado de Assis por uma adaptação que, ao invés de trazer o original aos nossos tempos, preservando seus traços essenciais, substituia-o por uma outra obra — e muito inferior — do diretor, Luiz Fernando Carvalho.

As linhas mais ácidas couberam a Mainardi, que não se deteve na crítica à série mas também fez maldosas insinuações sobre a paternidade do filho da atriz principal — que representa a Capitu da juventude. Além desses excessos — tão caros ao seu estilo bufão — denunciou as interpretações indevidas da obra de Machado por críticos feministas e marxistas que teriam grosseiramente projetado sua teorias sociais sobre a obra literária. Não deixou claro em que ponto discordava da interpretação feita pela mini-série, apenas atacando a forma “grotesca, afetada, espalhafatosa, cheia de contorcionismos e de malabarismos” com que o romance foi apresentado.

Embora a impressão de Mainardi do mini-série seja difícil de questionar, soa superficial sua comparação entre o livro e a adaptação. Em seu artigo enfatiza o estilo sóbrio, direto de Machado em contraste com o expressionismo (que, por vezes, beira o surreal) do diretor. Contudo, caberiam duas perguntas: a) será o livro tão sóbrio assim, ou será o aparente auto-controle do narrador-personagem Bentinho apenas uma máscara do grande descontrole emocional que ele deixa a ver em diversos momentos de sua biografia? b) Que queremos afinal dizer com o conceito de adaptação de uma obra, sobretudo no caso (bastante problemático) de passar de um meio a outro?

Quanto à primeira questão, já insinuo minha opinião na própria pergunta: sim, creio que há nos livros de Machado vários níveis de leitura, desde o mais superficial (estórias sentimentais prontas para o consumo rápido das suas “leitoras”, que o escritor sempre evoca) até o mais profundo de buscar as muitas relações intertextuais, as nuances mais sutis dos personagens, o sentido geral da obra etc. Assim, uma análise mais atenta de Bentinho notaria o quanto de “dissimulação” ele também carrega, não sendo a hipocrisia e as meias-palavras exclusivas de Capitu e Escobar: não podemos tomar o Dom Casmurro como uma confissão agostiniana, tão sincera quanto contrita. Assim, apesar da vida exteriormente tranqüila que o protagonista leva, estão explícitos ao longo de todo o livro os (fugazes) momentos de agressividade, sobretudo contra Capitu; e sua insegurança e ansiedade são contrastadas (e, de fato, psicologicamente compensadas) pela serenidade altiva de Escobar e pelo auto-controle da Capitu, de quem Bentinho se torna afetivamente dependente.

Assim, e voltando à segunda pergunta que fiz, haveria pouca possibilidade de manter essa dissimulação de Bentinho, na forma discreta com que a encontramos no romance, num meio naturalmente mais expressivo como a TV. Por outro lado, porém, essa dissimulação é a essência mesma do Dom Casmurro — como já poderíamos ler no título da obra. A solução encontrada pelo diretor foi dupla: insinuar o mau-caráter de Bentinho pela “canalhice” (palavra de Mainardi, que lembra aqui do Dick Vigarista!) do ator que o representou, sem se importar em dissimular a dissimulação, como faz Machado; e pela inserção de inúmeros pequenos clipes com motivos visuais e musicais da mini-série em substituição à narrativa freqüentemente metafórica e inusitada de Bentinho/Machado, mantendo assim a tergiversação e o tom indireto que encontramos em diversos trechos do original.

Neste último ponto, é interessante notar que talvez Machado de Assis seja o autor brasileiro do século XIX com a imaginação mais exuberante, sobretudo se comparado com seus antecessores românticos — freqüentemente esteotipados como sonhadores, visionários etc. Não encontramos nas intrigas urbanas de José Alencar ou nos heróis indíos de Gonçalves Dias nada comparado às delirantes divagações de Brás Cubas, ou às loucuras pseudo-filosóficas de Quincas Borba: será, portanto, tanta infidelidade ao mestre adaptar uma de suas obras com tanta liberdade criativa, utilizando atmosféricas oníricas e truques de edição para se aproximar de efeitos que ele mesmo parece querer produzir literariamente?! Parece-me, muito ao contrário, a melhor forma de trazer o espírito meio opaco do romance para um meio mais transparente — e assim, exteriorizar confusamante a confusão da vida interior do protagonista.

Outra objeção levantada por Mainardi foi contra a teatralidade que permeia toda a mini-série. Esse elemento aparece de diversas formas: nas atitudes “afetadas” dos protagonistas, em suas danças, coreografias e performances; além do palco que é exposto quando há menção ao teatro e em vários clipes. Mainardi parece indicar que esse elemento seria alienígena à obra original, uma adição inorgânica do diretor à temática do livro. Não poderia concordar com o colunista aqui: ao longo do livro o teatro não está ausente e tampouco é um elemento neutro à narrativa. O teatro enquanto lugar aparece em pelo menos um momento capital da estória quando Bentinho decide envenar Capitu depois de assistir a uma apresentação de Otelo; mas o que importa é o teatro enquanto símbolo da imitação, conceito-chave para uma interpretação de todo o livro.

A imitação assume importância se considerarmos a personalidade fraca de Bentinho, sempre sucetível a influências e exemplos. Uma amostra disso — e muito bem explorada pela mini-série — é quando José Dias faz Bentinho acreditar que está doente, para que possa sair do seminário, levando-o a encenar tosses periodícas para a platéia dos superiores no seminário. Escobar é o modelo para Bentinho, que segue uma vida padrão de “bacharel” da República Velha sob a constante influência da mãe, quando menino, e depois de Capitu. Mas o modelos de todos é a Europa, onipresente nos romances e contos de Machado, com o princípio e o fim da vida em sociedade: fonte das normas, modas e gostos e destinho exclusivo das grandes viagens, dos ricos e dos felizes. Mais importante que a presença explícita da Europa no conteúdo da obra de Machado, é o fato de ser o implícito de seu estilo “inglês”: como Bentinho, Machado também imita.

Porém, Machado de Assis não é um escritor fraco e não se trai em sua apropriação de modelos estrangeiros, mas os adapta aos própositos de sua narrativa absolutamente regional. Fala-se o tempo todo das maravilhas de Paris em suas obras, mas nunca o leitor sente-se distante do provincialismo carioca de então. Luiz Fernando Carvalho afasta-se das referências formais românticas e realistas de Machado para não gerar nos telespectadores o mesmo estranhamento que o escritor gera em seus leitores atuais, e opta por produzir um outro estranhamento, bem menos estranho (e bem mais pobre artisticamente): a utilização ostensiva de recursos visuais exuberantes e as muitas cenas inusitadas que misturam, de modo contrastante, elementos atuais e arcaícos (do tempo de Machado). Há nisso, sem dúvida, uma perda de qualidade em relação ao original, uma espetacularização da magia formal que a arte pode (e deve) criar. Há uma infinidade de “sacadas geniais do diretor” que, embora provoquem a primeira vista surpresa e um certo deslumbramento estético, são de fato vazias de significado e inteiramente descartáveis, sob um olhar mais frio e analítico da mini-série.

É inevitável concordar com Mainardi quanto à vulgarização da obra de Machado nesse ponto se lembrarmos das inúmeras cenas em que os personagens aparecem imóveis, antes de começarem propriamente a representar e a inserção pedante (pós-moderna?) de elementos atuais como figurantes vestidos de camiseta e bermuda e placas de rua atuais do Rio de Janeiro: Para quê tudo isso? Qual seu significado na mini-série?! A atualidade de Machado de Assis se impõe pela própria força do texto original, não necessita desses adornos forçados e inúteis . . .

Contudo, como disse, por vezes as cenas inusitadas e exuberantes serviram como um substituto interessante (embora freqüentemente empobrecedor) das indiretas e das insinuações sutis do livro. E assim, poderíamos dizer de toda a mini-série: é muito meritória como incentivo à leitura para as massas, e o vislumbre que proporciona do poder da arte é, sem dúvida, sedutor. Mas é um vislumbre com muito pouco da magia do original que, como o adultério de Capitu, permanece apenas como sugestão ao telespectador .

i hear in my mind

Dezembro 16, 2008 por guilhermehobbs

ps: sim, pretendo voltar a postar nos próximos dias: a blogosfera jamais será mesma!