Três caminhos para o namoro

abril 19, 2010

O amor burguês é a organização da imprudência.
Murilo Mendes

Na minha opinião, só há três grandes vias para guiar um namoro. Minto, uma delas consiste precisamente em não ter um “namoro” propriamente dito. A outra é o “namoro” como o mundo o entende. A terceira, a via em que acredito, e a única via que acredito ser defensável, até de um ponto de vista lógico, é a via dolorosa do namoro católico. Vou passar a explicar tudo isto.

Talvez você seja daquelas pessoas que sonha com um casamento confortável, com um ou dois filhos, e que está num namoro em que as relações sexuais pré-matrimoniais sejam vistas como normais. Muito possivelmente preza a fidelidade, gostaria de ter um namoro longo, gosta da ideia de ter uma pessoa em quem possa confiar ao seu lado. Não entende o que se passa com muitos dos seus colegas e amigos, que parecem “dormir” com uma rapariga diferente todos os dias. Se for mulher, não entende as amigas que mudam de “namorado” todas as semanas e se orgulham disso.

Permita-me tentar colocar alguma luz sobre o assunto.

O que leva uns a preferir constantemente o “sexo sem compromisso” e você a ter uma namorada, com quem tem relações sexuais sim, mas de quem gosta realmente (ou assim pensa você)?

Efectivamente, são duas vias erradas a priori, isto é, implicam necessariamente problemas, encarados até de um ponto de vista não-religioso. Por quê? O que estas vias têm em comum é precisamente a existência de uma intimidade sexual. E essa intimidade sexual imprime um carácter tão forte na relação, que acaba por ser tornar num verdadeiro problema. Para o contornar (não tendo a coragem de o resolver), existe a bifurcação que leva a que haja de facto duas vias distintas, que pessoas distintas percorrem.

A intimidade sexual tem profundas implicações no indivíduo, mexe no mais íntimo e profundo do seu ser, e revela-o ao outro. É algo de muito profundo que compromete o ser humano. Quando realizada fora do seu contexto natural, que é um contexto de entrega total ao outro, a intimidade sexual acarreta um grande problema: a criação de uma ligação tão profunda (que pode até resultar numa nova vida) que arrisca a expor o íntimo do ser, e, tão importante, a ser exposto ao íntimo de outro ser.

Naturalmente que, não estando no contexto próprio, esta exposição recíproca tem tendência a criar uma forte ligação e dependência emocional entre o (não-)”casal”.
Ou seja, uma fortíssima ligação e dependência emocional gera-se num contexto em que essa ligação não está protegida nem fundamentada num contexto maior de doação total. É como dar todas as riquezas a um estranho, que aparentemente também dá as suas riquezas, e ficar com o coração nas mãos, desejando que, por milagre, tudo corra bem e o outro não fuja com tudo.

Perante esta aflicção permanente, não tendo a coragem e a objectividade de entender que o problema está numa ligação que não tem condições de existir sem estar no seu contexto próprio, pessoas diferentes contornam o problema de formas diferentes.

Uns preferem render-se à dependência, e afogar a sensação de perigo no correr dos dias, na monotonia. Isto é, acabam por aprender a conviver com o esqueleto, de tal sorte que aquilo que poderia tirar o sono acabe por tornar-se rotineiro.

Assim assistimos a namoros de 5, 6, 7 anos, em que as pessoas vivem numa permanente apatia. Já nem pensam no que seria viver sem o namorado/a, que tornou-se um dado adquirido, como o Pai e a Mãe. Já não são namorados, tornam-se em melhores amigos com intimidade sexual, cuja relação assenta em mil favores mútuos e numa infinidade de hábitos adquiridos. Freqüentemente já não se sabe muito bem porque se namora, apenas se vai ficando, até um dia.

Este foi o tipo de “namoro” que emergiu, e que é comum e respeitado em muitos ambientes. Mas não pouca gente, e com razão, tem pavor desta coisa a que se chama “namoro”. Muitos não suportariam ficar presos a alguém, muitos não suportam o hábito irracional, a muitos a ideia de estar “preso” a algo apavora.

Daí, surge a forma mais evidente de desumanização do ser humano. De forma a evitar uma entrega mútua, separa-se totalmente o sexo de qualquer tipo de relação emocional, procurando-se criar o mínimo possível de intimidade e conhecimento. Assim, passa-se a agir como um animal.

Serão estas pessoas monstros? Não, somente não conseguem abdicar de ter relações sexuais, mas vêem, com bastante razão, que entregar o ouro ao bandido e esperar que ele não fuja, ficando refém do mesmo, não é solução de felicidade.

Isto é, objectivamente, o tipo de “namoro” de que falamos é irracional. Assenta numa ligação fortíssima num contexto que não é adequado ao mesmo. Se no caso do sexo fortuito falamos de pessoas agindo como animais, aqui falamos de pessoas que se tornam vegetais. Passada a paixão inicial, limitam-se a “ir ficando”, por hábito, por dependência básica, enquanto vão procurando a felicidade na realização profissional, e em férias, e em hobbies.

Qual é, então, o verdadeiro namoro? Qual é a única via que pode realizar efectivamente o homem e a mulher?

O verdadeiro namoro é aquele que consiste num período de conhecimento mútuo, sem intimidade sexual de qualquer tipo, sem a criação de dependência emocional. Qual deve ser a meta clara, que tem que estar bem à vista? O casamento.

O que se deve pois procurar numa namorada? Deve-se procurar uma mulher que garanta a boa educação dos filhos na Fé Católica, uma boa relação com o marido, que saiba que o casamento é uma verdadeira vocação e que implica sacrifício, e que assegure a boa gestão doméstica.

O que se deve procurar num namorado? A mesma coisa: Fé Católica, rectidão, bom exemplo para os filhos, espírito de trabalho e de sacrifício, por Deus e pela Família.

E a beleza? E a atracção física, têm aqui lugar? Certamente, embora não devam ser os factores que encabecem a lista. É muito desejável que haja atracção física de forma mútua, mas nunca deve essa atracção ofuscar a ponderação que deve ser feita do que será o Casamento e o bem dos Filhos.

O que é então o namoro cristão? É uma curta via de acesso ao Casamento, para a glória de Deus. É o desejo de conhecimento do outro, um espaço privilegiado para crescer na Fé e nas virtudes. Um espaço de amizade mútua, que não implique dependências excessivas e irracionais que aprisionam o indivíduo.

Como deve ser o namoro cristão? Curto, isto é, sempre com a vista do casamento bem clara. Objectivo, com ideias bem claras do que é essencial e do que é acessório. Santo, porque é para a glória de Deus e santificação das almas.

Para isto, a Fé, a Humildade, a Verdade e a Castidade são elementos indispensáveis.

Como diria um sacerdote, que é leitor assíduo deste blogue, sempre que lhe falo de alguém que conheço: “Filho, diz-lhe… como for o seu namoro, assim será o seu casamento”.

(retirado do blog http://economiadaalma.blogspot.com, já extinto; desconheço o nome do autor).

O rio e a serpente

março 22, 2010

(Jorge de Lima)

O rio e a serpente são misteriosos, meu filho.
Do cimo desta montanha
dois círculos do Eterno estavam.
Um círculo era a serpente,
o outro era o rio:
ambos se despenharam
procurando ambos o homem,
um para o purificar,
o outro para o envenenar.
Ambos foram encontrar
o homem simples lá embaixo.
Um lhe ofereceu o Peixe para o alimentar,
o outro lhe ofereceu o fruto para o intoxicar.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho.
Das nuvens se despenharam,
ambos se arrastam na terra
como dois caminhos do homem,
para ele se guiar.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho:
vêm do começo das coisas,
correm para o fim de tudo
e às vezes na água do rio
a negra serpente está.
As coisas eram simples,
ficaram confusas, meu filho:
o rio que te pode lavar
também pode te afogar,
pois com a aparência do rio
é a serpente que está.
O rio e a serpente são misteriosos, meu filho:
eram dois círculos no início,
vêm desatados de lá.

Ouvir só o assobio na noite

março 10, 2010

(texto de outubro/2009)

Eu tenho um vizinho que eu não conheço, nunca nem vi. Soube da sua existência uma noite — foi há tanto, foi antes de tudo acontecer . . . Estava aqui, sozinho, no meu quarto, e ouvi lá na rua alguém assobiar aquela música. Corri à janela, olhei para os lados — o assobio vinha de dentro do prédio! Mas em seguida a melodia foi se alterando até parar. Nunca mais soube do meu vizinho . . .

Hoje, quando acordei, fui ouvir novamente a minha música. Depois de tantos meses de estranhos concertos e desacertos, voltei a ouvi-la regularmente. Então notei, de fundo, o assobio de meu vizinho acompanhando a melodia. Corri à janela — não!, o som vem de dentro, da porta — e foi então que o toque do celular me interrompeu. Era o despertador que eu tinha esquecido. Era ninguém. Também não ouvi mais o assobio.

– A música é meu vizinho que assobia. O toque do celular me arremessa a mundos distantes, volto em desespero escrevendo bobagens para o blog . . . Sabe, acho que eu sempre quis ouvir só o meu vizinho assobiar.

***

A música em questão é essa:

Meu amigo e o amigo do meu amigo

fevereiro 13, 2010

Post em resposta (antipática) a este com um texto lindo e uma foto ótima. Ou com uma foto linda e um texto ótimo. Decidam-se.

Eu tenho um amigo que tem um outro amigo chamado USHAVA. Chega sexta, sábado à noite e me liga meu amigo: vamos lá pr’USHAVA? Eu tenho dito não, mas lá vai meu amigo para junto de seu outro amigo. Volta logo e eu lhe pergunto no msn: E aí? Como tava lá seu querido USHAVA?? A resposta não muda: a mesma m. de sempre! . . . Eu não entendo o meu amigo, o que talvez tenha algo a ver com o seu outro amigo ser ainda mais difícil de entender: torce para todos os times de futebol, nacionais e do estrangeiro, mas se esquece de torcer para si mesmo; fala por dezenas, até centenas de vozes, sotaques, desejos e disfarces mas jamais ouviu uma única palavra do que disse; rescende nos decotes e músculos expostos, faz caras e charmes, cochicha, beija, afaga, promete mais para a madrugada e, no entanto, tudo isso no isolamento de um deserto ainda virgem da presença de uma alma humana. Afinal — eis o mistério do niilismo! –, o USHAVA são várias pessoas que são uma só e ninguém ao mesmo tempo . . .

Para alguém tantos paradoxos talvez sirvam de atrativo; não parece ser o caso do meu amigo. Ele, felizmente, não tem a sutileza bruta necessária para apreciar a poesia da vulgaridade — uma grave deficiência para o seu progresso na Academia brasileira (mais ainda na carioca), onde recentemente se concluiu que, assumindo o pressuposto foulcaultiano de uma generosa (para compensar a exclusão do capital, né?) bolsa do CAPES, se deduz analiticamente do conceito Tati Quebra-Barraco, por um processo de desconstrução transversal da heteronormatividade, que este “sujeito contestador” excluído pela modernização excludente aufhabt os maiores “monumentos” da “cultura” ideológica imperialista judaico-cristã . . .

Voltando ao USHAVA: não sei como ele e meu amigo se entendem, pois não entendo a ambos. Mas, dado que o USHAVA nada entende de si próprio, talvez meu amigo se entendesse um pouco melhor se soubesse menos daquela criança sem ingenuidade, daquele louco inteiramente previsível. E assim fosse mais amigo dele próprio, fosse o melhor amigo do meu amigo.

(aviso aos desavisados: há no centro de Petrópolis um bar trance-cult denominado Shavasana, mais conhecido como “o Shava”, deveras freqüentado por pessoas bonitas, interessantes e de conversa rica e diversificada. Quero dizer, exatamente pelo oposto disso . . . ).

Algo digno de ser contado

fevereiro 12, 2010

Ontem aconteceu um dos fatos mais extraordinários (e esquisitos) da minha vida. Eram cerca de 11:20 da manhã e eu dormia. Sonhava com qualquer coisa quando tive um mergulho e passei a sonhar em profundidade. Uso interiormente essas expressões para quando volto aos meus primeiros tempos de colégio no meio dos meus sonhos, algo que, para meu bem ou para meu mal (boto umas fichas nessa segunda hipótese), tem se repetido cada vez mais. Essas voltas têm sido um reencontro com as pessoas, não com os cenários; isto é, no meio de um cenário atual da minha vida (num dia foi em plena Paulista) ressurgem aquelas crianças com seus rostinhos miúdos e uniformes vermelho-cinzas do Aplicação . . . É fantasmagórico! A intensidade agressiva dessas lembranças não-convidadas sempre me enche de medo e angústia durante — e depois — desses sonhos . . .

Pois bem. Tinha submergido a um desses transatlânticos naufragados no fundo do meu oceano psíquico e via meus colegas de onze anos atrás sentados, tagarelando e rindo, . . . no quarto em que, naquele mesmo momento, estava dormindo! No quarto a que voltarei para dormir daqui a umas horas . . . No meio deles (lembro-me de reconhecer uns três no meio da turba), estava a garota que gostava pelos meus dez anos, a Natália Q., minha colega de sala e vizinha de carteira (pois éramos organizados alfabeticamente, e N depois de G . . . vocês entenderam!). Vi-a com assustadora, cristalina nitidez. E ela se movia, estava viva . . . Estava viva no fundo de mim! Usava aquele cabelo meio-curto, aquela camisa branca do uniforme, o short cinza com a inscrição do nome do colégio em vermelho, o tênis com o cadarço . . . Vi-a como não a vejo há onze anos e como nunca mais a verei nessa vida!

Mas, desculpado meu tom melo-dramático, não foi esse o fato extraordinário. Essas visitas, um tanto saudosas, bastante aflitivas, têm sido cada vez mais “normais”. Não duram muito e desta vez logo ganhei mais consciência do que se passava e bruscamente parei de ouvir o som de conversa de criança (aliás, só notei que o “ouvia” nessa altura quando, já mais acordado, senti a porta das profundezas se fechar). E logo tudo voltou para as depressões abissais de onde tinha sobrevindo. Estava na cama de olhos abertos, sentindo-me um pouco emocionado, algo suave, até prazeroso, mas também confuso e angustiante . . . E foi então que o telefone tocou. Devo antes explicar que (para a desgraça do meu sono fora de hora) muita gente liga aqui para a minha mãe durante o dia, desde a manhã até o início da noite. Ou . . . Permitam-me uma correção: muita gente não, mas muitas vozes sem nome nem alma de um Ser chamado — telemarketing! “Aquelas paulistanas!”, diz sempre minha mãe quando é sua vez de atender. . . Pois é, lá vinham elas de novo! Ah sim, um detalhe: o nome da minha mãe é Celina.

Atendi. “Bom dia! Poderia falar com a senhora Natália?”. Meus olhos no mesmo instante lacrimaram; senti algo terno, docemente reconfortante, incompreensivelmente tranqüilizador transpassar minhas mãos, minhas costas, meus olhos, o céu da minha boca: tudo estava compreendido, tudo estava perdoado! “(…) Natália o quê?” Desafiei quem vinha à minha casa me fazer as perguntas mais difíceis e, por um instante, quis saber se o Mistério seria capaz de tanta coragem, de tanta loucura — de tanta generosidade — quanto Eu, o idiota até há pouco, o escolhido daquela manhã: “não . . . a senhora Celina, poderia falar com ela?”. Quis ainda perguntar quem era, uma fração de mim (a melhor fração) ainda esperava ouvir um: “é um Anjo!”, “O Demônio!” ou ainda, mais literário-humoristicamente: “Sou o sonho da tua esperança, tua febre que nunca descansa, . . .” etc.

Não, não era nenhum desses. Essas portas haviam se fechado também. Mas sei que cada dia que passa é um a menos para atravessá-las de vez . . .

Lição de coisas

fevereiro 1, 2010

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

D.

Uma das idéias mais profundas que o Rafael já me disse foi sobre o “amor das coisas”. Estávamos numa mesa de McDonald´s depois de uma missa e ele, recordando seu desenvolvimento espiritual, se referiu ao momento em que tinha descoberto na adolescência a estabilidade e a solidez do Real, e nelas sentindo o Amor mais impessoal — e pleno. Soa estranho, até incompreensível? Tá, então deixa eu te contar uma estorinha, caro leitor.

Era uma vez um cara que tinha acabado de levar um fora. Há poucas experiências que se parecem tanto com a morte, e que levam tantos ao encontro dEla. Os pensamentos que ocorrem ao espírito num momento desse — “mulher não presta”, “o mundo é mau”, “o beijo é a véspera do escarro” — têm todos o denominador comum da aniquilação, da negação do Ser, da auto-diluição no Grande Nada. É comum ler em poemas que as estrelas pararam de brilhar, que ninguém mais existia no mundo, que a vida seria daí em diante uma noite cerrada . . Até aqui 99,999999% de nós já conhecemos por experiência vivida. Mas olhemos com mais cuidado para esse quadro banal. Como ele estava — say — fisicamente, quando levou o fora? Digamos que sentado, na frente do pc. E digamos que por um instante, se distraindo um pouco da sua Tão Grande Dor, ele note que, por paradoxal e incompreensível que possa parecer, apesar dele sentir desoladamente que nada mais existe — ou querer que assim fosse –, sua mesinha do computador continua lá, apoiando seu cotovelo pesado de dores, nela está seu teclado, cinicamente indiferente a tudo o que por ele acabou de ser dito e até apoiando a desumana tela está um livro que afrontosamente não é (sequer!) de poesia — é pura matemática. Já percebes o tamanho da incongruência, sábio leitor?

Pois é, assim são as coisas. Elas não se importam com nossas bocas que nas tardes suspiram, com nossos olhos que, como conseqüência, choram pelas madrugadas — elas não querem nem saber. Mas elas estão conosco, quando nós mesmos não estamos mais em nós. Sua companhia indiferente, sua insistência para nada, sua fidelidade sem compromisso, sua gratuidade fria seu . . . amor impessoal. Acho que chegamos no ponto, don´t you think? Pois é, é desse Amor Impessoal que a mim e a Drayfine contava o Rafael, me desvelando um mundo até então só suspeitado e a que vinha lentamente me aproximando, sem ter os nomes certos, só tateando, e no escuro. (Muitíssimo obrigado por mais essa, Rafael!) E dessa idéia imaginei o que talvez seja o rascunho de uma refutação filosófica ao suicídio:

Eia a tese: o suicídio é uma contradição existencial. O suicida se engana pensando que sente que o Ser não existe mais, mas na realidade o que ele sente é que ele não queria que o Ser existisse, e se ilude pensando que sente o que ele queria sentir, o que ele gostaria de sentir pois é o que ele gostaria que fosse real. E ele queria que o Ser não fosse pois, tendo sido rejeitado — todo suicídio nasce de uma rejeição –, tendo sentido o Amor (irrealmente todo centrado numa coisa só, uma mulher, um emprego, um exército et caterva) como Ódio, como abandono, ele quer sentir inclusamente aquele Amor Impessoal Das Coisas como ódio e abandono também — essa vida de merda não vale de nada!, dizes, mas pergunto: o que a vida, de merda ou não, tem a ver com o emprego que acabaste de perder? o emprego é só uma parte da vida, não? a vida não continua aí com ou sem emprego? amanhã o Sol não nasce, esteja você no campo de concentração ou com a Gisele Bündchen na cama? — mas, pela camuflagem de pensar que sente o que gostaria de sentir, ele pensa que realmente está abandonado, na sua confortável casa num bairro nobre da cidade, enquanto a máquina termina seu café expresso e cai uma chuva fininha lá fora . . . Mas, se o Ser me deixou, o que fazer? Não é preciso muita meditação para ver que nada há para fazer! Imagino que ninguém faça criativamente nada no Inferno! Se há algo para fazer . . . é algo para fazer com o Ser, que portanto não me abandonou. Mas eu não quero aceitar isso, não convém ao meu desespero tão valioso e pessoal, então vou me concentrar alucinogenamente na idéia de que realmente não sinto mais o Ser, e se sou obrigado a admitir este meu corpo pançudo, e essa janela impertinente batendo por causa do vento, então vou tentar sentir como se todo esse soberbo, incomensurável e onipresente mundo material não fosse presença, não fosse amor — a janela bate, mas não é comigo. E, seguindo a lógica explicada pelo Olavo num artigo recente de quem, querendo na verdade arredondar os quadrados, começa jurando que, no fundo, os quadrados sempre foram redondos desde pequenininhos e então procede a arrendondá-los na prática com toda a brutalidade que, por simpatia entre iguais, sempre acompanha a insensatez (Olá Movimento Gay, tudo bom com vocês?), o suicida, se o mundo insiste em existir, vai ter que aniquilar uma parte dele como símbolo do Todo, aquela mesma que lhe dá a inconveniente evidência de que o Ser ainda é — seu corpo. E como ele pensa que sente o que gostaria de sentir — que o Ser o abandonou — faz isso como uma conseqüência lógica desse abandono quando, na verdade, como mostrei acima, o próprio ato é a contradição dessa premissa pretextual — se é preciso se matar, então não há motivo para se matar; a mesa do computador ainda está aí, se rindo toda das suas mentiras solitárias! Em suma: o suicídio é, antes de tudo, auto-engano e, enquanto tal, falsificação existencial.

E só mais umas palavras: outro dia ainda repetia a uma pessoa aí o dito “sou humano e nada do que é humano me é alheio” e o dizia como se quisesse me humanizar mais e mais. Muito bem. Pois agora sugiro: além do humano, quiçá mais que o próprio humano, o que humaniza é o pré-humano. Tente ficar alguns minutos, todos os dias, contemplando uma velha árvore, uma rocha cheia de musgos, a sua estúpida mesa do computador. Aprenda com sua estabilidade, solidez, impenetrabilidade, com a sua mutação lenta (até um fim repentino!), com a sua perfeição de virtudes cristãs: as coisas, também elas, tudo sofrem, tudo crêem, tudo esperam, tudo suportam. E reflita sobre esta charada: a mais firme intuição desse Amor difuso e sem rosto é o princípio de toda visão-de-mundo objetiva e, mais profundamente, de toda vida objetiva, de toda vida real.

Aprenda o amor das coisas. Talvez por aí você ainda possa aprender algo sobre o que pode ser o amor humano.

Volta às aulas

setembro 10, 2009

Nessa noite tive um sonho que é toda a sensação do meu dia. Sonho não, recordação: era de novo um menino percorrendo os quartos, salas, corredores, todos vazios, da casa da minha vó numas férias perdidas de quando era criança. Minha vó descansava invisível em alguma parte inexistente da casa, que era toda minha e eu não tinha nada o que fazer lá. Ansiava por qualquer coisa que não sabia dar nome — a rua lá fora? a brincadeira das crianças na rua? meus colegas que me destestavam? algum brinquedo novo de que nunca me enjoaria? — e andava e andava, talvez para encontrar esse algo, talvez para tentar esquecê-lo. Tentava criar meu brinquedo, tentava ser minha própria compania — mas isso era tão insuficiente, eu sempre fui tão insuficiente . . . E eram férias intermináveis, meus colegas viviam em mundos encantados, incomunicáveis, que jamais poderia habitar e na tarde infinita eu era único, vazio, diante do mar inesgotável da minha indiferença a mim mesmo . . .

O mais curioso no sonho, contudo, era que a casa da minha vó estava em reforma. Bem no quarto dela, as obras abriram uma passagem (parecia também uma porta) que não conhecia e que, menino medroso que era, não me atrevi a explorar. Que pena! Talvez fosse a entrada para sair daquele sonho. Para um sonho melhor, talvez.

***

Entre as tardes vazias da minha infância e as noite claras da minha adultice vadia, quê mudou? Mudou que, do outro lado da porta, acho que ainda vou andar sozinho.

Portanto: o que ainda significa atravessá-la?

O beijo

setembro 2, 2009

(Manuel Bandeira)

Quando a moça lhe estendeu a boca
(A idade da inocência tinha voltado,
Já não havia na árvore maçãs envenenadas),
Ele sentiu, pela primeira vez, que a vida era um dom fácil
De insuspeitáveis possibilidades.

Ai dele!
Tudo fora pura ilusão daquele beijo.
Tudo tornou a ser cativeiro, inquietação, perplexidade:

- No mundo só havia de verdadeiramente livre aquele beijo.

Breve nota sobre a Indelevelmente Histórica e Bravamente Heróica Batalha da USP pelejada ontem pelas plagas da Cidade Universitária

junho 10, 2009

A primeira palavra que ouvi ao entrar nessa universidade foi repressão. Estava eu, um desorientado neófito sonhador, saindo da sala de preenchimento da matrícula e, depois do ritual emporcalhamento do meu rosto e da minha camisa (que, na hora, achei o fato mais “significativo” e extraordinário de toda a minha vida), veio uma menina, que depois soube que era da famosa (e infame) NN, me convidar para uma certa festa cheia de muitos adjetivos que, de alguma forma mística e mui incompreensível para um não-iniciado como eu — era uma festa contra a tal da repressão.

– Mas . . . Como assim “repressão”? Que repressão tem na universidade?

– Ah, a repressão, pô! Tá vendo ali? É o nosso diretor facista!

Olhei para onde ela me apontou: um homem de meia-idade (mais pra idade que pra meia), de bengala, já muito calvo, olhava de forma algo desconfiada, e até hostil (na hora me pareceu hostil), para os lados, para os novos estudantes, enquanto seguia em frente com passo firme.

– Nossa! Mas ele é facista mesmo? Gosta do Mussolini e tal? . . .

Ele não gostava. Era tucano, especialista em Max Weber e, suponho, que como todo bom tucano, um fabiano água-com-açúcar, bem do nem-isso-nem-aquilo: afinal, que faria um super-malvadão facista na direção de uma faculdade reconhecida pelo esquerdismo acima de qualquer suspeita?

– Ele é facista sim, botou grades no espaço dos estudantes, é autoritário . . .

E enquando olhava de novo para nosso Mussolini Geraldo Alckmin, de um facismo tão modesto, tão . . . chuchu!, minha cara iniciadora nos mistérios do esquerdismo aloprado sumiu tão inexplicavelmente quanto aparecera. Foi tudo uma questão de estratégia revolucionária, hoje penso.

Foi uma decepção mútua, para dizer a verdade.

Política

junho 5, 2009

A questão em política é, e sempre será, para mim, por que aquela menina solitária no ponto de ônibus, sem amigos por perto (e por longe?!), sem paquera, no frio, com fome e querendo ir logo para casa jantar, por que aquela menina não está, e jamais estaria, na assembléia da Letras, da Filosofia, no comitê do PCO or whatever?

Aquela menina que, em casa, escreverá seu post diário sobre solidão no seu blog, aquela menina que veio hoje para a faculdade para estudar Leibniz — só para se perder mais profundamente dentro de si mesma, para boiar mais no fundo — por que, insisto, essa garota não está dizendo e repetindo e repetindo que é um absurdo a PM invadir o campus, que não pode haver repressão ao movimento sindical, por que ela não está me dizendo tudo isso no saguão da faculdade, movendo pausadamente as mãos, naquele tom persuasivo de quem diz “sou calma, muito calma, mas mexeu comigo . . .”, por que ela olha para o chão, por que ela encolhe os lábios de frio, por que ela nem responde aos meus olhares insistentes, por quê, por quê?!

Por que ela se fecha a todo esse mundo — o meu mundo, o mundo que luto a cada dia por fazer cada vez mais meu — a todo esse mundo de vulgaridade, de perguntinhas engraçadas durante a aula, esse concurso de piadas interminável, de piadas que andam, falam, amam!, até contam piadas umas pras outras . . . Por que você não conta a sua também? Por que você fala com a professora em particular no final da aula, por que você não quer se mostrar — se mostrar um imbecil — como eu, por que você nem me deixa te odiar por tua superioridade, por que eu ainda acho teu silêncio mais interessante que todo esse bla-bla-blá aqui, por que eu não ouso escrever teu nome, por que tua solidão me faz querer ficar sozinho, por que, sozinho, me sinto contigo, por que sonho contigo acordado se, à noite, só tenho pesadelos, por que você me fez voltar a ouvir Radiohead, por que você me faz querer andar, sozinho!, pelas ruas do centro entre mendigos, advogados e crianças de colégio, por que você me faz gostar dos meus maus versos — das merdas dos meus posts — se eles falam de você?!!

Em resumo, é essa a minha opinião sobre a recentemente decretada greve geral dos estudantes da USP no quadro mais amplo da crise do capitalismo global tardio.


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