Era uma vez, numa aldeia distante por entre serras azuis e cachoeiras esverdeadas, um rapaz que construia uma torre para ir morar na Lua. Hélio tinha na vida este sonho — seu único sonho — desde a noite em que vira, por um acaso, depois de despertar de um pesadelo de criança, a Lua cheia na janela de seu quarto: ele, que era só um menino, sentiu-se como se se apaixonasse pela primeira vez . . . Desde essa noite, passava os dias planejando sua futura chegada àquele reino belo e distante que, quanto mais seus braços lhe davam forças, tornava-se cada vez mais próximo: depois de ensaiar — um mero amador! — com os galhos secos que achava no jardim de sua casa, começou, já adolescente, a erguer sua torre com os pesados troncos da floresta. Machado, seu melhor amigo, seu único amigo, lhe trazia nos braços musculosos as pesadas árvores que, para se exercitar, arrancava todas as manhãs da terra e, pelo restante do dia, enquanto seu companheiro trabalhava nas alturas encaixando as peças brutas de sua criação, Machado fumava seu cigarro de capim molemente encostado no pilar da torre — e assobiava e cantava as moças que, distraídas, como são todas as moças, por lá passavam.
Uma das moças Hélio conhecia de nome e de rosto — e a amava. Mariana vivia com o pai serralheiro no mais fundo da floresta e era a moça mais bela da aldeia, com seus bandós loiros e olhos azuis que eram como uma fonte pura e jamais encontrada. Ao entardecer, saia todos os dias com amigas para colher um gira-sol, o mais radiante que pudesse encontrar, numa campina perto da torre de Hélio, que a ela somente contemplava como quem admira um astro em fogo ao cruzar entre planetas sem luz própria. Apaixonado, ardente em brasa, saia dali de volta à aldeia com Machado, a quem nada confidenciava, e em seu silêncio punha toda a sua fidelidade — ela era toda para ele e ele era todo dela. É claro que Mariana jamais sequer vira Hélio, que, no entanto, naqueles seus instantes diários de eternidade, buscava uma espécie de fuga de sua existência insuficiente — encontrando, na realidade, um agravante e um perfeito retrato dela. E ele então pensava que quando chegasse afinal na Lua, daria um jeito de levá-la consigo, ou talvez nem pensasse mais nela . . .
Até que alguma coisa aconteceu. Mariana, sempre saltitando pelo caminho de volta junto das amigas, a flor entrelaçada no cabelo e os olhos anelantes no Sol poente entre as montanhas, por um instante irreal naquela quarta-feira dia 15 de março — e Hélio, no segundo seguinte, não tinha mais certeza se não fora apenas um sonho — olhou para cima! Olhou para a torre? Viu ele? Viu que ele a via?! Hélio não sabia o que pensar, mas as marteladas em seu coração acelerado o confundiam com enigmas em tom de resolução: era a hora! ele tinha que fazer algo! é a vida que bate à porta! — se dizia sem se compreender . . . Como ele poderia agir, afinal?! Mas ele já estava construindo sua torre até a Lua . . .
Estava inquieto naquele entardecer junto de Machado. Ele, que sempre só ouvia as aventuras e mentiras que lhe contava seu único amigo, sem ter nada para responder ou dizer de si (e difusamente atraído por todo aquele palavreado que, no entanto, não hesitava em taxar interiormente de “fútil”), pela primeira vez tomou a palavra e, muito timidamente, começou a murmurar sobre Mariana, sobre o que ocorrera, sobre o que poderia ocorrer . . . Machado se deliciou em ouvir tudo aquilo, tinha um olhar diferente sobre o amigo naquela tarde — Machado que, apesar das aparências, era um sábio. Um sábio mundano, é certo, mas ainda assim um sábio e sua maior alegria era observar a vida que, ocultando-se e como que morrendo por um instante, renascia no outro transmutada sob vestes inteiramente novas, as menos antecipáveis: sempre a mesma vida, sempre renovada. Era este fogo inextinguível que Machado sentia naquela fala tão acanhada — tão sincera! — do amigo, que lhe provava em definitivo que não seria por uma torre feita de floresta que Hélio escaparia da floresta, do verdadeiro Elemento que é a vida. O único movimento permitido no Um é conhecê-lo mais a fundo e a vida que em Hélio morrera por fora, tinha renascido por dentro — e ele não tinha mais para onde nem como fugir:
– Então você vai conhecer a Mariana amanhã, certo?, disse Machado de súbito.
– Não, não vai ser possível, isso . . .
Machado, sem paciência para essas hesitações, cortou Hélio abruptamente e expôs ao amigo seu plano de ação:
– Tá, tá certo! Olha, minha idéia é a seguinte: vou falar com ela amanhã, já conheço ela, e digo que você quer conhecer ela também. Apresento vocês e depois deixo por sua conta e risco . . . Uma dica que posso te dar é
Agora é Hélio que o interrompe:
– Não pedi nem preciso de dica nenhuma! Aliás, tudo isto está muito acima da sua imaginação, ainda mais acima do que o alto da minha torre está para o charco imundo da floresta! Além do mais,
– Escuta aqui, seu louco,
– Eu sou Poeta!
Hélio, falando com toda a força da sinceridade dos loucos, fez parar Machado, que viu que pouco havia por fazer ou dizer. Em meio à raiva, sentiu pena do amigo e pensou que o melhor, naquele momento, seria deixar o barco ser levado pela torrente do rio — ainda que para naufragar fatalmente ao chegar no alto-mar. Repetiu pacientemente o plano e perguntou se o outro concordava. Hélio, ainda muito confuso, porém mais calmo, assentiu calando-se.
(continua . . .)